Mais Sonhos..

Hoje fartei-me de sonhar. Foram vários sonhos e no entanto este foi o que me deixou a pensar mais sobre o assunto. Ando aqui há uns tempos a tentar perceber o que isto significa, se é que significa alguma coisa e também a pensar na melhor forma de escrever sobre isto. Como não sei bem como fazê-lo, começo por descrever o sonho e depois logo se vê.

O sonho começa comigo no meio de um grupo de pessoas num exercício de partilha. Há uma empatia muito forte no ar, uma energia calma e serena. Todos nós falamos, todos nós escutamos e agora estou eu a falar. Estou a partilhar algo da minha bagagem, traumas do passado, coisas felizes da minha história; não sei, não interessa. Mesmo a meio do que estou a dizer, chega outra pessoa que interrompe para cumprimentar todos. Entretanto eu tento recomeçar a falar mas essa pessoa não se cala. Por mais que eu procure por uma pausa no discurso para eu poder interromper, não a encontro. As pessoas restantes ouvem atentamente ao que a nova pessoa está a dizer. Sinto-me incomodado, sinto-me eliminado da existência. É como se naquele momento eu estar ou não estar ali não fizesse qualquer diferença.

Senti-me invisivel.

Houve ainda outras coisas no sonho, mas creio que não são relevantes para a minha auto-análise (se calhar até são).

Acordei, sentei-me na cama e fiquei assim, em silêncio a pensar em tudo isto. Descobri qual é uma das minhas feridas e quais as suas ramificações. Eu não gosto de ser interrompido, detesto sentir que aquilo que estou a dizer não é importante para os outros; dou demasiada importância ao que os outros pensam sobre o que eu digo. Consequentemente eu remeto-me às sombras e ao silêncio para não ter que sentir essa invisibilidade novamente. Sim, já a senti muitas vezes. Já muitas vezes comecei a dizer qualquer coisa e fui interrompido para não conseguir terminar o que comecei a dizer. Em algumas ocasiões, ainda me dizem: “desculpa, estavas a dizer?”. Nessas alturas eu simplesmente digo que já não me lembro e as pessoas continuam com outra coisa qualquer.

Eu até me lembro, mas não da mesma maneira, não na totalidade, perdi o fio à meada, o raciocínio do que estava a dizer. E é aí que me sinto invisível. Aquilo que estava a dizer não era importante. Não ao ponto de ser ouvido até ao fim. Quantas mais vezes estas coisas foram acontecendo, mais sombrio e silencioso eu fui ficando. Deixei de começar a falar, limito-me a responder quando falam comigo e me perguntam qualquer coisa, abdiquei totalmente da atenção. O que não significa que eu goste ou que me sinta muito bem com isso.

Eu não sou pessoa de palco, não tenho grande paixão por estar debaixo das luzes perante uma multidão, mas também não sou um hermita isolado. Adoro dar atenção às pessoas que me interessam, pessoas de quem eu gosto, no entanto também gosto de ser o centro das atenções. Pequenos momentos aqui e ali em que a atenção dos que me rodeiam é focada em mim sem serem interrompidos por outra estrela mais intensa. E isso é algo que tem sido cada vez mais raro. Cada vez mais as pessoas se focam em apenas duas coisas. Quando não é o seu próprio umbigo, estão focadas num qualquer bicho social que é a alma de qualquer festa, sempre alegre, bem disposto e brincalhão que no fundo é apenas algo muito superficial. A sociedade diz-nos que temos que ser posistivos, alegres, sempre para cima. Não é suposto termos momentos em baixo juntamente com momentos em cima. E eu sou assim, quando estou em cima sou extremamente alegre e bem disposto e quando estou em baixo sou mais sossegado e silencioso. Mas o facto de estar silencioso não quer dizer que eu não esteja ali, não quer dizer que não esteja a observar o que acontece.

E falta-me sentir que estão atentos a mim. Seja qual for o meu estado. Não me refiro a ninguém em específico, não responsabilizo ninguém a não ser eu próprio por esta falta de atenção. Apenas precisava de escrever isto… para me ler e para me ouvir a mim.

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