7th May 2019 Noodles 0Comment

Estava um dia cinzento, o vento soprava com uma certa fúria fazendo dobrar as árvores. A chuva caía na diagonal, em gotas pequenas mas em quantidade suficiente para encharcar qualquer um. É um daqueles dias que só dá vontade de ficar em casa em pijama a beber um chá enquanto vemos e ouvimos a chuva a cair lá fora, no entanto em vez disso ele preferiu saír para ir beber um chá ao seu refúgio à beira-mar. Vestiu roupa quente e apercebeu-se que não tem nenhuma gabardine ou nenhum casaco impermeável portando decidiu ir assim mesmo.

Já no seu destino sentou-se numa mesa, pousou o seu livro e blocos de notas em cima da mesa e pediu um chocolate quente. Enquanto esperava observou o ambiente à sua volta e ouvia o murmurar das conversas sem realmente escutar o que era dito. A grande maioria das pessoas que ali estavam eram casais ou grupos de casais, apenas ele estava sozinho na sua mesa. Não era coisa que o incomodasse e nunca foi; era apenas algo curioso que ele estava a observar. Era muito raro encontrar alguém sozinho num café, cinema, ou algo parecido. – “De facto estas coisas são boas quando partilhadas com boa companhia no entanto está cada vez mais difícil encontrá-la.” – Pensava ele para si próprio.

Chegou o chocolate quente, ele segurou a chávena entre as mãos sentindo o seu calor e aproximou-a do nariz para sentir o seu aroma. Ele pega no livro e abre-o na página marcada e continua a sua leitura. O livro é um romance passado em Londres Victoriana do final do século dezanove, que está a revelar-se deveras interessante. Um dos seus passatempos favoritos é estar nesta esplanada a ler o seu livro e a beber um chocolate quente, de preferência em dias como estes.

Estava completamente embrenhado na sua leitura quando uma voz suave o interrompe.

  • Desculpe, posso sentar-me nesta mesa? Não há mais lugares vagos.

Ele baixa o livro e levanta os olhos e dá de caras com uma mulher lindíssima. Cabelo castanho, liso e comprido abaixo dos ombros, com uns olhos de um castanho claro cor de mel e com um olhar profundo sem ser intrusivo. Na sua mão direita segurava um livro e um bloco de notas. Ele estava hipnotizado; passaram apenas uns escassos segundos e parecia que o tempo tinha parado ali, quase parecia um filme em câmara lenta.

  • Sim, claro. Esteja à vontade! – Responde ele com um sorriso.

Ela sorri de volta equanto se senta. “Que sorriso fantástico” – Pensa ele sem qualquer hesitação.

  • Posso pedir um chocolate quente para si? – Pergunta ele.
  • Sim, obrigado. Como adivinhou?
  • Intuição, talvez. Parece-me ser o tipo de pessoa que gosta de chocolate quente.
  • Está a dizer que sou gorda?
  • Não, longe disso. Simplesmente acho que, normalmente, quem gosta de ler também gosta de chocolate quente.
  • Ah.. Safou-se bem. – Diz ela com um certo brilho nos olhos.

“Ela tem realmente um sorriso lindo”.

Enquanto ele olha em volta à procura do empregado para pedir mais um chocolate quente apercebe-se que há pelo menos mais duas mesas vazias na esplanada e mais uma lá dentro. “Ela quis mesmo sentar-se ao pé de mim.” – Pensou ele com um sentimento de espanto.

  • Costuma vir aqui muitas vezes? – Pergunta ela.
  • Sim e não. Já cá venho há muitos anos, mas ultimamente não tenho vindo muito. E trate-me por tu, não consigo habituar-me ao tratamento formal.
  • Boa, também sinto o mesmo em relação ao “você”. Eu também venho aqui há anos e não me lembro de te ter visto aqui. Se bem que também estive muito tempo sem cá vir.
  • Se calhar não era para nos termos encontrado até hoje.

A conversa entre eles continuou animada. A energia fluía entre eles de uma forma perfeitamente equilibrada, ambos se deliciavam com a presença um do outro, debatiam todo o tipo de assuntos, ambos com um sorriso cada vez maior.