Mimos

Mais uma vez esta semana o meu diafragma cedeu. É um nó que se forma um pouco abaixo do externo que de repente se desfaz e deixa passar uma avalanche de lágrimas. E é difícil de parar… foram mais de trinta anos a construir estas barreiras, a erguer as muralhas e agora… agora estou a deitar tudo abaixo; vem tudo cá para fora.

Há quem me diga: “Também! Não era preciso seres tão bruto contigo próprio!”. Não, se calhar não havia necessidade disso. E no entanto não consegui encontrar outra maneira de fazer isto. Espreitei apenas pelo buraco da fechadura e foi como se algo me puxasse para o outro lado e eu não consegui parar.

Ainda bem que não parei… Ainda bem que me deixei ir. Choro que nem um desalmado, dia e noite… dou por mim durante um dia de trabalho, a refugiar-me na casa de banho para chorar. Choro agora enquanto ouço esta música, o meu gato aproxima-se, mia como quem pergunta o que se passa. Salta para o meu colo, enrosca-se e deita-se nas minhas pernas. Olha-me nos olhos com aquele olhar intenso e leal que só ele tem e repousa o queixo em cima da minha mão. Sinto a sua patinha apertar-me a perna com as unhas sem nunca magoar; como um carinho que …

Choro, sinto-me triste e no entanto estou bem… estou no caminho certo… estou a tomar conta de mim e principalmente, estou a mimar-me…

Porque se eu não me mimar, ninguém o fará por mim…

Escrita

Gosto de escrever. Uma das ocasiões em que escrevo é quando estou a ouvir música e a fazer tempo enquanto espero por algo. Nem sempre escrevo coisas de jeito ou, se calhar quase nunca. No entanto não interessa se é de jeito ou não, a única coisa que me importa é o bem que me sabe escrever, deitar cá para fora aquilo que me surge na cabeça, aquilo que estou a sentir. Sempre foi muito mais fácil para mim escrever do que falar. Há mais de trinta anos que sou uma pessoa fechada, silenciosa. Eu não era assim, era um puto completamente extrovertido, expansivo, metia conversa com toda a gente que se cruzasse no meu caminho. Da minha infância retive a minha bondade, o meu desejo de ver os outros felizes, a minha criatividade e imaginação… e guardei dentro de mim, lá bem fundo, essa expansividade, essa alegria de viver.

Estou agora a tentar resgatar tudo isso, a tentar tomar conta de mim. É difícil, mudar hábitos e padrões com mais de trinta anos… Há várias pessoas que ajudam nessa tarefa, no entanto o trabalho é todo meu. Estou a re-aprender a amar-me e está a saber bem.

Músicas

Há letras de músicas que parecem reflectir um estado de espírito ou até dizer aquilo que não conseguimos por falta de palavras ou oportunidade. Esta é uma delas.


I thought that you knew it all
Well you’ve seen it ten times before.
I thought that you had it down
With both your feet on the ground.
I love slow … slow but deep.
Feigned affections wash over me.
Dream on my dear
And renounce temporal obligations.
Dream on my dear
It’s a sleep from which you may not awaken.

You build me up then you knock me down.

You play the fool while I play the clown.
We keep time to the beat of an old slave drum.
You raise my hopes then you raise the odds
You tell me that I dream too much
Now I’m serving time in disillusionment.
I don’t believe you anymore … I don’t believe you.
I thought that I knew it all
I’d seen all the signs before.
I thought that you were the one
In darkness my heart was won.
You build me up then you knock me down.
You play the fool while I play the clown.
We keep time to the beat of an old slave drum.
You raise my hopes then you raise the odds
You tell me that I dream too much
Now I’m serving time in a domestic graveyard.

I don’t believe you anymore … I don’t believe you.

Never let it be said I was untrue
I never found a home inside of you.
Never let it be said I was untrue
I gave you all my time.

The Ubiquitous Mr. Lovegrove – Dead Can Dance

É oficial

A culpa foi toda minha. Fui mau e cruel, fiz coisas más e cruéis. Enfim, sou culpado de tudo o que aconteceu de mau.

Acho que a minha mana tem toda a razão quando diz: “Vai cagar à mata!”

Dilemas

Grandes dilemas são debatidos, discutidos, filosofados e conversados entre mim e mim na minha própria cabeça… Credo que é muito eu junto na mesma frase.

Hoje está a ser um dia particularmente difícil. Talvez seja do cansaço, já estamos quase no fim de semana e não tenho dormido muito. Não me queixo, eu acordo sem sono e aparentemente o meu corpo indica não precisar de mais e no entanto sinto um certo cansaço mental… sim, mental porque emocionalmente estou completamente arrasado. Sinto-me triste pelas mais variadas razões e a acresentar a isto sinto-me zangado.

Pensei várias vezes em escrever aqui as causas da minha tristeza e da minha zanga mas não o vou fazer. Estou a passar por um processo de cura… um processo que só por si já é extremamente doloroso, envolve mexer e remexer em feridas muito antigas, tentar colocar-lhe pensos para ajudar na cicatrização; E como se isto não fosse suficiente, junto-lhe um processo de luto também muito doloroso.

Creio que, com tudo isto em cima dos meus ombros, é natural que eu me sinta triste e ao mesmo tempo zangado. Sim, a zanga é apenas uma máscara da dor, no entanto sinto-a, uso-a como minha. Sinto-me zangado comigo próprio por me ter permitido chegar a este ponto de dor, por ter aparado todos os golpes que me feriram desta forma. Assumo total responsabilidade pelo estado em que estou, a minha inacção perante o que me fazia mal levou-me a este estado. Assumo isto e curo as minhas feridas.

Ouço esta música e sinto-a espelhar com uma exactidão quase milimétrica tudo aquilo que estou a sentir: uma fúria enorme seguida de uma dor profunda, triste.

Sou como um navio no oceano, no meio de uma tempestade perfeita. Ventos selvagens percorrem a superfície da água e levantam vagas gigantes que arrastam tudo no seu caminho. Sinto-me a subir paredes de água que parecem não ter fim para depois do outro lado cair de cabeça na água levantando grande almofadas de espuma. Lá ao fundo a uma distância imensurável conseguem vislumbrar-se raios de sol a irromper pelo meio das núvens cinzentas. As águas acalmam à medida que nos aproximamos, a luminisidade aumenta e a temperatura sobe devagar. O frio começa a desaparecer e fica apenas um quentinho bom por dentro.

Ao longo da minha vida escrevi várias cartas de amor, onde declarava o amor que sentia por alguém. Descrevi ao pormenor todas as borboletas que tinha no estômago, as suas cores, a intensidade com que batiam as asas. Falei do que queria, prometi o mundo e mais ainda. E no entanto nunca escrevi uma carta de amor a mim próprio. Sempre amei outras pessoas e quase sempre colocando-me em segundo lugar. Achava eu que amar-me era um acto egoísta e narcisista, quando na verdade eu não consigo entregar-me na totalidade se não me amar. Eu sempre pensei e senti que me entregava na totalidade e na verdade era apenas uma entrega total de parte de mim.

Acho que está na hora de escrever uma carta de amor de mim para mim.

Força nisso

Quando tentamos forçar algo, normalmente não sai bem. Principalmente algo que envolva a criatividade.

Por exemplo, tentar escrever algo quando não temos inspiração para encontrar assunto de escrita, geralmente resulta em não conseguirmos escrever nada ou o que escrevemos não fica nada de jeito.

Neste preciso momento estou com uma pequena crise se inspiração, no entanto até estou a escrever.

Certo, não está a sair nada de jeito, mas mesmo assim ainda estou a escrever.

Por vezes, o que acontece é não termos assunto de escrita mas começamos a escrever na mesma. Apenas aquilo que nós vai na alma. E por vezes, isso acaba por evoluir e transformar-se em algo de jeito.

É tudo uma questão de começarmos a escrever simplesmente por escrever, sem qualquer assunto significativo e eventualmente as ideias começam a formar-se e as palavras começam a fluir para o papel.

Interrompi esta crónica para ir a uma aula de yoga. Quando comecei a escrever isto tinha a cabeça a todo o gás, agora está muito mais calma… Aparentemente.

Na verdade estou a ter grandes conversas comigo próprio. Discuto ideias e sentimentos, o que fazer sobre isso, como reagir ou agir. Faço perguntas, forneço as respostas, repito as perguntas e dou novas resposta, ou por vezes a mesma resposta.

É um exercício interessante.

Strange Dreams

As he entered the room he felt a chill run down his spine, like someone had just danced over his grave. The room was a dark and eerie place, dust and cobwebs everywhere, but apart from that, everything was still in its original place; time has stopped flowing here a long time ago. Small vegetation started to grow in between the cracks on the floor, on the left wall there was a huge crack, top to bottom, from where the large roots of an ancient tree crept through. The air was stuffy but chilly at the same time, there was this energy flowing that one could not exactly pinpoint.
He kept on exploring the room, trying to figure out where he was. He had woken up here with just a flashlight, a knife and remembered nothing about getting here. How did he get here? What was this place? He remembered walking down a new path in the forest yesterday, or was it some time ago? What day is this? He knows it’s night time, the full moon in a clear sky is shining a lot of light through the windows.

Old furniture scattered around the big room, a big dining table, some chairs, candle sticks. Everything ready for a big dinner party; But, nothing else that indicates signs of life.

Suddenly, there’s a noise coming from the next room. Sound like a door, opening and closing. He quickly turns off the flashlight and finds a hiding spot behind the massive roots of the tree. Another clicking sound and the door opens revealing someone looking around into the room as if searching for something. He tries to make out who or what it is, but he can only see a shadowy figure on the doorway.

The door closes again and after a few minutes later he decides to leave his hiding spot. “So, this door is unlocked. I need to find out where I am. What the hell has happened to me” – he thinks to himself. At first, he peeks through the key hole to see what’s on the other side of the door, but it’s too dark and he doesn’t dare using the flashlight.
He tentatively opens the door and sees a long corridor that ends in two doors, one on each side. Large windows along the corridor cast out shadows from the bright moonlight. He starts walking and as he looks outside he sees the same figure as before walking away towards what looks like an old crypt or mausoleum. As he reaches the doors, he checks both. The one on the left leads outside to a path on the garden that clearly heads to the crypt he saw, while the door on the right leads to another room which looks like some sort of atrium with small tables and dresses around the walls. Two other doors can be seen, one opposite and the other to the left.
He can’t go outside, that person or whatever it is might be dangerous, so he chooses the atrium. But that leads to more doors, and who knows what else.

He opens the door in front and it’s another corridor while the door on the left leads to a big leaving room with a huge piano on one corner, a fireplace in the wall in front, some big chairs and a big oval table in the middle of the room. This room has no windows, but it has a big skylight on the ceiling letting a lot of light come through. There is another door to the left. He starts walking towards it and suddenly the lights are turned on.

The dust and the cobwebs disappear instantaneously, everything is spotless. He’s stopped in the middle of a brightly lit room, alone (he thinks), looking around. This can’t be right! Everything was old and covered in dust and now it’s sparkling clean! And who turned on the lights?

What the hell is going on here? Where am I?

Footsteps… Growing louder… His heart starts racing. Felling a cold sweat and an adrenaline rush he looks around for a hiding spot. as the sounds become louder he starts hearing some sort of music in the distance. He hides behind a big chair in the corner. The music is getting louder, it’s strangely familiar. The footsteps stop. There’s a clicking sound. The door opens…

He opens is eyes, sweating and sits up on the bed. To his right the alarm clock is playing the “wake up” music. Perplexed he thinks:
“What a fucking strange dream”

Ironia do destino

Assim de repente quando estamos já a subir as escadas muito devagarinho, um degrau atrás do outro, vem o nosso amigo universo, prega-te uma rasteira e lá vais tu aos trambolhões até ao fundo das escadas.

Vá, upa, upa… Levanta-te e começa a subir as escadas de novo.

Interesting quotes

“I was younger then, I wasn’t afraid of anything, I didn’t think about dying for a second. I thought I was invincible. Then I met some girl. I wanted to live, I started to think like that; for the first time I was afraid of death. I had never felt like that before.” – Spike Spiegel

“I love the type of woman who can kick my ass.” – Spike Spiegel

Regressos

Meses sem cá vir e assim de repente regresso ao meu café habitual aqui perto de casa. Chegar aqui e ser recebido pelo casal, donos do café, com um sorriso aberto e a pergunta sincera se está tudo bem é impagável.